De goiabada a tucupi, os sabores do Brasil ganham espaço nas cozinhas autorais e nas mesas paulistanas com força inédita.
Pergunte a qualquer chef que trabalha em São Paulo hoje o que define o prato mais interessante de 2026, e a resposta vai, quase sempre, passar pelo mesmo caminho: o Brasil. Não é saudosismo, nem modismo passageiro. É uma virada consistente, sustentada por pesquisa, identidade e um público disposto a redescobrir o que sempre esteve aqui. Para o chef e confeiteiro Lucas Corazza, também jurado do programa “Que Seja Doce” na GNT, a maior tendência de 2026 é ser brasileiro, com ingredientes como goiabada, doce de leite, mandioca, chocolate brasileiro e cupuaçu ganhando protagonismo. O TEMPO
Esse movimento vai além das confeitarias e chega às cozinhas salgadas, aos bares, às cantinas de bairro. Mas como traduzir essa brasilidade em receitas que funcionem no dia a dia? O que está mudando na forma como os paulistanos cozinham e o que os restaurantes da cidade estão ensinando sobre isso?
Os ingredientes que estão transformando a mesa paulistana
São Paulo sempre foi uma cidade de muitas cozinhas. Na capital paulistana, restaurantes representam com excelência a gastronomia brasileira, com projetos que vão desde o tradicional, que faz parte do cotidiano dos brasileiros, até conceitos inovadores que elevam a cozinha nacional a um status de arte culinária. O que muda em 2026 é a intensidade desse olhar. Ingredientes que antes ficavam restritos às cozinhas regionais agora chegam com força às mesas de São Paulo. michelin
O tucupi, líquido amarelo extraído da mandioca-brava e fermentado, ganhou espaço em pratos que vão do pato ao frango. A mandioca, presença constante na culinária do Norte e Nordeste, aparece em formas que vão da farofa artesanal ao creme aerado servido em restaurantes de alto padrão. No restaurante Cuia, da chef Bel Coelho, em São Paulo, a valorização de ingredientes brasileiros e de produtos da agricultura familiar se traduz em pratos como o peixe do dia, servido com farofa de feijão manteiguinha e molho de tucupi. Esse tipo de combinação mostra que não é preciso complicar para elevar. O TEMPO
O chocolate brasileiro, especialmente o proveniente do sul da Bahia e do Pará, também conquista cada vez mais cozinheiros. Diferente do chocolate industrializado, os cacaus nativos têm perfis aromáticos que permitem preparações mais complexas. Receitas simples, como mousse de chocolate com flor de sal e farofa de cacau, viram assinatura de chefs que entendem que o produto brasileiro não precisa de reforço externo para brilhar.
Receitas da brasilidade que cabem na sua cozinha
A boa notícia é que essa tendência não fica restrita aos restaurantes. Ela pode e deve entrar na cozinha de casa, com ingredientes acessíveis e técnicas adaptáveis. Uma das receitas que melhor traduz esse momento é o bolo de mandioca com calda de maracujá, preparação que mistura a raiz mais democrática do Brasil com a acidez do fruto mais reconhecível do país.
Para o preparo, basta ralar mandioca crua, misturar com ovos, coco ralado, açúcar e uma pitada de sal. Levar ao forno em forma untada por cerca de 40 minutos e finalizar com calda feita de suco de maracujá concentrado reduzido com açúcar. O resultado é uma sobremesa úmida, aromática e com uma identidade inconfundível. Não precisa de baunilha importada nem de farinha de trigo: o Brasil inteiro está nessa receita.
Outra preparação que cresce nas cozinhas paulistanas é o frango caipira refogado com tucupi e jambu. O frango é selado com alho, cebola e pimenta-de-cheiro, depois cozido lentamente com o tucupi até o molho engrossar. As folhas de jambu são adicionadas ao final, criando aquela sensação de formigamento suave na boca que é, ao mesmo tempo, estranha e viciante. Relatórios da Mintel, WGSN e Innova Market Insights apontam que em 2026 a busca por sabores globais com raízes locais ganha destaque entre os consumidores. Nada mais global com raízes locais do que isso. Revista Fórum
Por que cozinhar com ingredientes brasileiros faz sentido hoje
Além do sabor, há uma razão prática e econômica para esse movimento ganhar força em 2026. A priorização de parcerias com pequenos produtores e cooperativas locais não apenas garante ingredientes frescos e de qualidade superior, mas também fortalece cadeias produtivas sustentáveis e preserva conhecimentos tradicionais. Comprar cupuaçu do produtor paraense, manteiga de garrafa do sertão nordestino ou mel de abelha nativa de um apicultor gaúcho é uma decisão que vai além do prato. Arquitetando Paladar
O combate ao desperdício também deixa de ser uma ação de caridade para se tornar um sinal de sofisticação e inovação, com marcas contando a história de ingredientes “resgatados” como um diferencial de sabor e ética. Cascas de maracujá viram geleia, talos de couve entram em caldos, sementes de abóbora são tostadas e viram petisco. Em São Paulo, essa lógica chega com força total, inclusive nos restaurantes mais reconhecidos. Revista Fórum
Cozinhar com o Brasil não é uma limitação. É uma das escolhas mais ricas que qualquer cozinheiro, profissional ou doméstico, pode fazer hoje.
Fontes: O Tempo | Revista Fórum | Guia Michelin Brasil
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
