Entenda como facções criminosas podem usar fintechs, bets e criptoativos para lavar dinheiro

Marina Korevina Marina Korevina
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Paulo de Matos Junior

Conforme ressalta o empresário do segmento financeiro, nas áreas de câmbio e intermediação de criptoativos, Paulo de Matos Junior, as facções criminosas deixaram de depender apenas do dinheiro em espécie e passaram a movimentar seus lucros por meio da tecnologia financeira. Contas digitais, plataformas de apostas e moedas virtuais oferecem velocidade, volume e certo grau de anonimato. Esse movimento transforma a lavagem de dinheiro em um desafio que já não cabe nos modelos tradicionais de fiscalização.

Inclusive, o crime organizado acompanha a digitalização com rapidez maior que a do Estado. Desse modo, enquanto o poder público discute regras, os grupos criminosos testam rotas novas, pulverizam valores e misturam dinheiro ilícito ao fluxo legal de empresas e usuários comuns. Com isso em mente, a seguir, detalharemos como as fintechs, as bets (apostas online) e os criptoativos entram nessa engrenagem.

Como as facções criminosas lavam dinheiro com as fintechs e as bets?

As fintechs oferecem abertura de contas rápida e transferências instantâneas, o que facilita a criação de redes de contas de passagem. Como o setor só ganhou regulação em 2021, muitas instituições operaram sem autorização do Banco Central. Já as bets funcionam como um canal paralelo: o dinheiro entra como aposta e sai como prêmio, com aparência de origem legítima.

Isto posto, o ponto crítico está na fragmentação. Em vez de mover uma quantia alta de uma só vez, as organizações criminosas dividem o valor em milhares de operações pequenas, distribuídas entre contas de terceiros. Assim, cada transação, vista isoladamente, parece banal. No final, somente um cruzamento de dados revela o padrão, e esse cruzamento exige tecnologia, pessoal e acesso a informações que nem sempre existem, pontua Paulo de Matos Junior.

O que torna os criptoativos tão atraentes para o crime organizado?

Os criptoativos permitem esconder patrimônio e enviar valores ao exterior com rapidez e baixa identificação. Basta uma carteira digital para transferir fundos entre países sem passar pelo sistema bancário tradicional. Depois, o dinheiro pode retornar convertido em imóveis, veículos ou investimentos em empresas de fachada, já com aparência regular. Dessa maneira, a mesma tecnologia que democratiza o acesso financeiro também protege quem tenta ocultar a origem dos recursos, frisa Paulo de Matos Junior.

Paulo de Matos Junior
Paulo de Matos Junior

Aliás, o risco cresce porque a regulação dos ativos virtuais ainda não alcança todos os agentes do mercado. Quando uma atividade de alto risco fica fora do radar, o crime encontra ali o caminho mais curto. A resposta, portanto, passa por ampliar a supervisão e exigir das plataformas o mesmo rigor aplicado aos bancos, comenta Paulo de Matos Junior, empresário do segmento financeiro, nas áreas de câmbio e intermediação de criptoativos.

Quais caminhos ajudam a combater a lavagem de dinheiro das facções?

O enfrentamento exige resposta coordenada, e não uma medida isolada. Nos últimos dez anos, o volume de comunicações de operações suspeitas recebidas pelo Coaf cresceu mais de 700%, mas a estrutura do órgão não acompanhou essa demanda. Tendo isso em vista, as seguintes cinco frentes merecem prioridade na agenda de combate à lavagem de dinheiro:

  • Equipe própria: carreira específica para analistas, com estabilidade e especialização técnica;
  • Bases integradas: acesso ampliado a dados de outros órgãos e comunicação obrigatória de ilícitos;
  • Tecnologia avançada: uso de aprendizado de máquina para identificar movimentações atípicas;
  • Supervisão ampliada: regras mais firmes para criptoativos, bets e setores hoje fora do alcance;
  • Cooperação institucional: integração entre Polícia, Ministério Público, Receita Federal e inteligência financeira.

De acordo com Paulo de Matos Junior, essas frentes funcionam melhor quando avançam juntas. Afinal, uma equipe qualificada sem tecnologia perde velocidade, e uma tecnologia sem integração entre instituições produz alertas que ninguém consegue transformar em investigação. Cada elo frágil vira uma brecha explorada pelas facções criminosas. Ou seja, a lógica é encadear análise, fiscalização e punição em um único fluxo.

Cortar o fluxo financeiro é enfraquecer as facções

Em última análise, o dinheiro é o oxigênio das organizações criminosas, e a tecnologia financeira ampliou os canais por onde ele circula. Assim sendo, as fintechs, as bets e os criptoativos não são o problema em si. O risco surge quando falta uma fiscalização proporcional ao tamanho do negócio, o que abre espaço para que as facções criminosas escondam a origem de seus ganhos.

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