A cremação deixou de ser uma escolha marginal para se tornar uma das principais formas de disposição final no país. Nesse contexto, Tiago Oliva Schietti aponta um dado que resume bem o momento: em pouco mais de uma década, o número de cremações no Brasil cresceu mais de 400%, saltando de pouco menos de 50 mil procedimentos anuais para mais de 250 mil. Não é uma tendência passageira. É uma mudança estrutural no modo como os brasileiros lidam com a morte.
Entender esse movimento exige ir além dos números. O que está mudando não é só a escolha do procedimento, mas a forma como as famílias constroem significado em torno da perda. A cremação vem carregada de novos rituais, novas formas de guardar memória e, surpreendentemente, novas formas de se despedir.
Por que a cremação cresceu tanto no Brasil?
Os fatores que explicam essa expansão são múltiplos e se alimentam mutuamente. O crescimento das cidades, o encarecimento dos terrenos em cemitérios tradicionais e a maior circulação de informação sobre alternativas funerárias criaram um ambiente favorável para que a cremação ganhasse espaço. Conforme avalia Tiago Oliva Schietti, a questão financeira é um ponto de entrada para muitas famílias, mas raramente é o único motivador da decisão.
Há também uma dimensão prática relevante: urnas podem ser transportadas, guardadas em casa, divididas entre familiares ou até levadas para locais de significado afetivo. Cemitérios convencionais impõem uma lógica de visitação geográfica que nem sempre se encaixa na vida contemporânea, especialmente para famílias que vivem em cidades diferentes ou que migraram de suas origens. A cremação, nesse sentido, oferece uma mobilidade simbólica que o sepultamento tradicional não consegue oferecer.
O que mudou na percepção cultural sobre cremar?
Durante muito tempo, a cremação foi associada a contextos culturais específicos, principalmente às tradições orientais e a certos grupos religiosos. Para boa parte dos brasileiros, sobretudo os mais ligados ao catolicismo, a ideia de cremar um ente querido gerava resistência genuína. Essa percepção mudou de forma gradual, mas consistente.
Na avaliação de Tiago Oliva Schietti, o papel das novas gerações nesse processo é central. Filhos e netos que participam ativamente das decisões sobre o funeral de seus pais e avós chegam com outra relação com o tema, menos presa a dogmas e mais voltada para o que faz sentido para aquela família específica. A conversa sobre morte, embora ainda desconfortável, está se tornando mais aberta e antecipada, o que abre espaço para escolhas mais conscientes.

O próprio posicionamento da Igreja Católica, que desde 1963 permite a cremação desde que não seja realizada por razões contrárias à fé cristã, contribuiu para desfazer parte da barreira religiosa. Com o tempo, o tema foi perdendo o peso do tabu e ganhando espaço dentro das conversas familiares normais.
Sustentabilidade e cremação: uma conexão real?
Um dos argumentos que tem ganhado força entre os defensores da cremação é o ambiental. Cemitérios ocupam grandes extensões de terra urbana, demandam manutenção constante e, em alguns modelos, envolvem o uso de materiais que levam décadas para se decompor. A cremação, comparativamente, exige menos espaço e deixa um impacto físico menor no território.
Segundo Tiago Oliva Schietti, esse argumento ressoa especialmente entre públicos urbanos com maior sensibilidade ambiental, mas deve ser contextualizado. O processo de cremação consome energia e gera emissões. Tecnologias mais modernas têm avançado para reduzir esse impacto, e há iniciativas que combinam cremação com práticas de compensação ambiental, mas a narrativa “verde” da cremação ainda carece de mais rigor técnico para ser adotada sem ressalvas.
A cremação como parte de um novo mercado funerário
O setor funerário brasileiro vive um momento de reorganização. Empresas investem em estruturas mais modernas, cerimônias personalizadas e serviços de apoio ao luto que vão além do procedimento em si. A cremação ocupa um lugar central nessa transformação porque exige um aparato técnico específico e permite um nível de customização que o sepultamento convencional raramente oferece.
Dentro desse cenário, Tiago Oliva Schietti observa que a demanda por transparência cresceu junto com o mercado. Famílias querem entender o processo, conhecer os equipamentos, saber da origem e do destino dos restos mortais. Essa postura mais exigente do consumidor está pressionando o setor a operar com mais clareza e responsabilidade, o que, no médio prazo, deve elevar o padrão geral dos serviços.
O luto não acabou, ele se transformou
Há quem pense que a cremação torna o luto menos concreto, menos localizado. A ausência de um túmulo a visitar poderia, segundo essa leitura, dificultar o processo de elaboração da perda. A prática, porém, mostra algo diferente. Muitas famílias relatam que a posse das cinzas cria um vínculo diferente, não necessariamente menor, com a memória do falecido.
Rituais surgem a partir dessa nova realidade. A dispersão das cinzas em locais com significado afetivo, a criação de joias com parte dos restos mortais, a divisão das cinzas entre membros da família, essas práticas não indicam distanciamento do luto, mas sua reconfiguração. O que muda é a forma, não a profundidade do sentimento.
A cremação, portanto, não representa o fim de nada. Representa a adaptação de algo muito humano, a necessidade de honrar quem se foi, a um mundo que se organiza de formas cada vez mais diversas. Entender essa mudança é entender também como o Brasil está crescendo na sua relação com a morte.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
